terça-feira, 20 de março de 2018

Olá pessoas, apresento aqui o conto publicado pela Ciclo Editora, espero que gostem!

                                                                           




                                              ESQUECER... JAMAIS

Dizem que Dolores havia sido uma moça muito bonita quando jovem, mas que perdera o viço e o sabor da vida quando o noivo a deixara dois dias antes do casamento. O rapaz se perdera de amor por outra jovem, bem mais jovem, aliás. Sem coragem para romper o noivado com Dolores, preferiu fugir com o novo amor.
Dolores guardou a dor, o vestido, o enxoval e a vergonha. Saía na rua e fingia não perceber os olhares de piedade ou arremedos de sorrisos solidários dos conhecidos; fingia não saber que todos cochichavam quando se afastava, afinal, viviam numa vila e, às vezes, faltavam assuntos entre as comadres. Ela encarou o fato de ser a protagonista dos disse-que-disse com a convicção de quem não havia cometido nenhum crime que a desabonasse. Sufocou a amargura e seguiu em frente. Nunca mais se envolveu com outra pessoa.
Amigos e familiares evitaram tocar em assuntos que envolvessem a palavra casamento. Mas, para espanto geral, o luto de Dolores durou pouco tempo e ela surpreendeu a todos quando foi visitar a família do ex-noivo, decidida a terminar com o mal-estar resultante da atitude impensada do rapaz. Depois desse fato, ela ganhou o respeito de toda a vila e passou a ser tratada como heroína, aquela que era um exemplo de força e dignidade a ser seguido.
Por isso, foi um reboliço quando chegou a notícia de que ele viria passar o Natal com a família e apresentar um dos quatro filhos que teve. Mais de trinta anos depois, sem dar qualquer informação de seu paradeiro, ele finalmente retornava.
A notícia circulou primeiro entre os familiares do rapaz, que acharam prudente avisar os parentes de Dolores a fim de prepará-la para situação. E, mais uma vez, a mulher deu uma lição de generosidade e gentileza ao se mostrar feliz com a visita do ex-noivo e do filho dele, além de acenar o desejo de reencontrá-lo, sem ressentimentos.
A novidade correu como rastilho de pólvora e, passado o impacto inicial, um clima de festa contagiou todos aqueles que conheciam a história de Dolores. Mas, ainda assim, estavam apreensivos com o reencontro. Qual seria a reação de Dolores? Será que havia superado de verdade o abandono? Será que com ele por perto, ela não daria um escândalo? Era esperar para ver. E o dia chegou!
Depois de descansado da viagem, o rapaz – agora um senhor grisalho – conversou com a família, com os amigos mais íntimos que foram recepcioná-lo, falou das dificuldades da vida como professor, dos quatro filhos que teve e da viuvez. Não, não se arrependera de nada, fora e era ainda feliz! Apenas desejava ter tido mais coragem, ter feito a coisa certa. Quis saber de Dolores. Já sabia que ela não se casara e morava na casinha que seria deles, não é? Será que ela o receberia?
O reencontro aconteceu de forma simples, um pouco formal até: no almoço oferecido por um amigo em comum, um terreno neutro. Começaram meio tímidos, conversaram sobre como o tempo parecia não ter passado para ambos, apesar dos cabelos brancos. Ele mostrou as fotos dos filhos e dos dois netinhos que já tinha; ela falou do curso de enfermagem que fizera e de como gostava de ajudar as pessoas, que abrira um curso e dava aulas. O filho dele também participou da conversa e se mostrou muito interessado em conhecer um pouco do passado do pai, conhecer os familiares e, principalmente, a ex-noiva, a moça abandonada. Gostou de Dolores. Ela tinha um lindo sorriso que contrastava com o olhar, um tanto tristonho! Sentiu pena da mulher!!!
Como pai e filho ficariam mais duas semanas, teriam um tempinho para colocarem os assuntos em dia. Dolores e o ex-noivo passaram a se falar com frequência por telefone, ele chegou a ir buscá-la no hospital e se lembrou do por que se apaixonara por ela. Era divertida, espirituosa e continuava bem bonita. Mas com o coração não se discute... Ele fez o que fez e ponto.
Dolores convidou todos os amigos e familiares para um almoço em sua casa, uma confraternização de despedida, já que pai e filho iriam embora na próxima semana. Na véspera da festa, o ex-noivo ligou para Dolores, convidando-a para um passeio, ali mesmo pela praça, mas infelizmente ela não pôde aceitar; estava às voltas com as aulas, ele sabia como era, mas se quisesse tomar um licor na casa dela, seria bem-vindo. Ele aceitou e foi.
Ele chegou uma hora depois, conforme haviam combinado. Estava muito bonito e levava flores. Ela também caprichara no visual: resolveu fazer o mesmo penteado e maquiagem de anos atrás, quando se preparou para se casar. Ele se espantou quando ela abriu a porta. Nossa, como estava linda!
Dolores convidou-o a entrar e se sentar. Começou falando do trabalho de preparar aulas, fingindo não ter percebido a reação dele. E, assim falando, pegou dois cálices e a garrafa de licor de jenipapo, depositou sobre a mesinha do centro e ele os serviu. Sorveram um pequeno gole, gostaram. Era caseiro, ela o comprara na feira, mas esperava por uma ocasião especial para abrir.
Depois do segundo cálice estavam mais relaxados, mas como ela bem o sabia, ele nunca fora forte com bebida e estava meio zonzo. Já com a fala mais amolecida, ele se disse sonolento, e ela perguntou se ele não queria deitar um pouco. Ele aceitou. Ela o amparou até o quarto e o deitou na cama que um dia quis dividir com ele.
Dolores voltou para a sala e recolheu os copos e os levou até a pia, mas antes bebeu mais uma dose do licor, dessa vez no copo dele. Lavou tudo, guardou a garrafa, foi até o baú que decorava a sala e o abriu. Retirou de lá o vestido de noiva que guardara por mais de trinta anos, vestiu-o, pegou as flores que ele lhe entregara na porta e rumou para o quarto, entoando mentalmente a marcha nupcial. Já estava cambaleando quando alcançou a cama e, sorrindo, se ajeitou ao lado de seu amado. Morreram assim, felizes para sempre, como tinha de ser.





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