domingo, 9 de outubro de 2016

UM CONTO SEM FADAS



UM CONTO SEM FADAS
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A casa era rosa por fora, por dentro era branquinha. Era uma casa perfeita bem mobiliada e muito chique! No primeiro pavimento havia a sala com dois ambientes ― a mesa de jantar era linda…― a cozinha, o lavabo e a lavanderia. No segundo pavimento via-se uma sala de jogos e tv ― provavelmente onde a família passaria horas de diversão e conforto ― depois haviam os quartos, eram quatro e o que seria da menina era o mais bonito, tinha até um tapete felpudo perto da cama! Dava para sentir o aconchego, mesmo do lado de fora da vitrine. Era uma casa de bonecas, mas a negrinha se imaginava no lugar do ser inanimado que iria habitar ali, na verdade sentia até uma pontinha de inveja. Passava na porta da loja todos os dias à noite a caminho de casa, isso já quase um ano, mas aquela casinha de boneca estava exposta ali apenas duas semanas pela aproximação do dia das crianças.
A menina apertou a sacola de encontro ao peito e seguiu o caminho, a mãe com certeza já devia estar preocupada, pois ela não costumava demorar muito, saia do mercadão às seis da tarde, e às sete horas no mais tardar, entrava no barraco. Mas dessa vez ela conseguiu limpar mais de uma barraca e ainda ganhou aquelas verduras e legumes que fatalmente iriam para o lixo, e estavam tão boas! Com esses pensamento apertou o passo e em poucos minutos viu o aglomerado de barracões entre as margens da rodovia e do rio podre que corria na cidade. E pensar que há menos de dois anos morava em outra cidade, em uma casa simples, mas confortável com o pai, a mãe e o irmão. Sentiu um nó na garganta, mas não chorou, aprendeu a não chorar mais. Entrou na favela e de cabeça baixa rumou para o abrigo que ela e a mãe haviam construído com tábuas e outros materiais descartados que encontraram em um bota-fora perto do lixão. Tiveram que se virar para construir aquele caixote no terreno invadido.
Quando a menina entrou em casa com a sacola cheia de frutas e legumes a mãe a olhou com os olhos marejados e pensou que aquela criança só tinha doze anos… crescera, amadurecera muito em apenas um ano, cada mês passado parecia equivaler cem anos! Saíram fugidas do Rio de Janeiro, praticamente apenas com as roupas do corpo, os traficantes que mataram seu marido e o filho mais velho deram a elas apenas quatro horas para saírem do morro. Fizeram duas malas, mais algumas sacolas e saíram sem se despedirem de ninguém, foi a ordem! Mesmo assim, correndo risco de vida, o pastor Isaías lhes deu um dinheirinho e as alertou para levarem o máximo de documentos possível, para recomeçarem a vida, e assim fizeram.
Desde então, estavam ali, tentando recomeçar em outro estado, sobrevivendo à margem da vida. Estavam pagando pela honestidade do marido morto porque se recusou a pagar pela “proteção” da milícia, e que por pura maldade atiraram no filho de apenas quinze anos, o garoto correu para socorrer o pai e recebeu um tiro a queima roupa! Uma semana após o ocorrido veio a ordem para que a mulher e a menina saíssem do morro, para servir como exemplo àqueles que não pagassem para viver ali.
Mas elas estavam vivas e juntas começaram a esvaziar a sacola de feira e a planejarem a sopa que fariam. A faxina que a mãe fizera durante o dia lhes rendeu uma pequena cesta básica, juntas sorriam e falavam do futuro, acreditavam que a situação iria melhorar. Mais tarde foram dormir satisfeitas com o dia vivido e esperançosas de que o seguinte seria melhor ainda. A mãe sonhava que o marido e o filho trabalhavam na pequena mercearia que a família possuíra no passado; a menina sonhava que tinha um quarto, e ele era rosa por fora e branquinho por dentro, havia uma cama de princesa com um tapetinho felpudo perto dela…



*Fonte de imagem: < www.google.com.br >


   

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