sábado, 29 de outubro de 2016

Água de coco

Esse conto publiquei no site Wattpad há uns dois anos (+/-),  ia publicá-lo aqui na semana do acidente que vitimou o ator Domingos Montaigner, mas com o ocorrido resolvi não fazê-lo por respeito e também para evitar que associassem a algum tipo de oportunismo. Agora acho que dá...



ÁGUA DE COCO
Zaquel chegava toda sexta-feira por volta das cinco horas da manhã, ficava encostado na parede do galpão perto do latão em chamas para espantar o frio. Dessa forma, garantia bons produtos. Não era de muita conversa, não sorria com facilidade, mas não era uma pessoa rude, talvez porque lidasse com vendas, tinha contato direto com os clientes, precisava ser educado ao tratar as pessoas. Vendia água de coco na “Praia da Boquinha”. Encostava seu carrinho no calçadão, pois não tinha licença da prefeitura para o comércio como ambulante na areia.
A “Praia da Boquinha” era famosa por sua água calma e morninha, não tinha ondas e por isso era indicada para as crianças e os idosos. Era muito frequentada por babás de roupas branquinhas e seus carrinhos de bebês. Esses eram os principais clientes de Zaquel, que se diferenciava dos outros vendedores ao oferecer água doce para lavar as mãozinhas sujas de areia e ofertar um balãozinho para os pequenos. Com essas iniciativas foi ganhando a confiança e o respeito dessa seleta clientela.
Aquela manhã de sexta-feira parecia como outra qualquer. Zaquel comprou sua média de costumeira de 1000 cocos verdes para garantir o fim de semana, na volta passou na lojinha de artigos para festas e comprou mais um pacote de balões coloridos. Foi para casa lavar os cocos e colocá-los para gelar, essa tarefa ele deixava para a esposa e os três filhos executarem. Pensou em dormir um pouco, sexta-feira era um dia dado como perdido, pois ao repor o estoque da mercadoria, Zaquel perdia mais da metade do dia, mas garantia um produto limpo e geladinho no sábado e no domingo. Embora estivesse cansado, Zaquel resolveu não dormir, ao invés disso foi fazer algo que não estava acostumado: foi curtir a praia como uma pessoa comum, sentia que tinha esse direito, curtir a praia!
O sol já rumava para o horizonte quando Zaquel chegou à praia, a brisa que vinha do mar soprava morna, o lugar estava quase deserto, muitas pessoas aproveitavam para caminhar àquela hora no calçadão ou malhar nos aparelhos de ginásticas dispostos em pontos estratégicos da orla. Zaquel tirou a camisa, mas não tirou a bermuda. Caminhou em direção ao mar, molhou os pés e se atirou na água. Sentiu que podia ir mais para dentro, deu braçadas vigorosas e avançou mais um pouco. Mergulhou …nadou…nadou…foi tragado pelas águas morninhas e não voltou. 

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