domingo, 18 de setembro de 2016

ABSOLUT

Ah, l'amour, l'amour... regado a sonhos e caipirinhas!






ABSOLUT

  Acordei de madrugada, abri os olhos de repente. Que horas seriam? Virei-me para o lado e alcancei o celular no criado mudo à minha esquerda: três horas da manhã! Rolei na cama e fiquei de bruços. Finquei os cotovelos no travesseiro, o sonho ainda estava claro em minha mente. Apoiei o queixo nas mãos, havia sonhado com um bebezinho, era uma menina, então decidi continuar sonhando, mas agora bem acordada: seu nome seria Bessie. Seria travessa, geniosa e pretinha como o pai. Faria manha quando contrariada e  e eu a colocaria de castigo  - ficaria sem gelatina! - Depois  faríamos as pazes e brincaríamos à tarde no parquinho. Seria assim! Mas para que esse sonho se tornasse real seria preciso tomar algumas providências: ir ao encontro com o gringo, por exemplo.
   Finalmente amanheceu, sete horas da manhã pulei da cama e repassei o plano do dia: trabalhar até meio-dia (meio expediente aos sábados), depois ir ao salão e fazer as unhas, retocar a tinta dos cabelos, fazer escova e por fim encarar a depilação.
   O grupo havia combinado o happy hour no bar de sempre, depois decidiríamos se iríamos dançar ou ficar por ali mesmo. O gringo queria matar a saudade dos amigos que fizera no Brasil, então o bar da última vez era a pedida. Já era a terceira vez que ele visitava o país, e a segunda vez que vinha para minha cidade. Sua função era ministrar uma oficina de otimização de vendas para a empresa. Era simpático, carismático mesmo e muito elegante. Na primeira vez, no decorrer da semana, enquanto o curso acontecia, ficávamos sempre conversando um pouquinho mais, até que no último dia ele sugeriu uma confraternização e a turma concordou. A noite foi ótima, nos conhecemos melhor: dançamos, rimos, bebemos e ele se foi.
   Há duas semanas, depois de quase um ano, ele entrou em contato comigo.Tomei um grande susto! Ele estava voltando ao Brasil a trabalho, iria para São Paulo dessa vez, mas gostaria de reencontrar aquele grupo animado, antes de voltar para seu país. Estávamos em contato desde então. Trocávamos mensagens por whatsApp e facebook. A cada troca de mensagens ficávamos mais íntimos, tratávamos já por nossos apelidos: eu Lili de (Dhalila), ele Kenny de (Keneth). Ansiava por reencontrá-lo, do alto dos meus trinta e sete anos e sempre sozinha, desejava uma aventura e o gringo estava me dando condições. As mensagens foram ficando mais atrevidas, algumas vezes bem picantes. Pensei que uma louca noite de amor poderia me render um fruto  e acabar com minha solidão. Seria assim, uma produção independente e sem cobranças. Consegui reunir o grupo, todos ficaram eufóricos, o gringo era realmente uma excelente companhia. Passaríamos momentos agradáveis com certeza. E, eis que chegou o grande dia! Por volta das dez horas da manhã recebi o telefonema dele dizendo que acabara de chegar e já estava se acomodando no hotel Estava tudo confirmado para a noite, né? Ótimo. Mais tarde no bar, o pessoal começou a chegar e em pouco tempo todos já estavam lá, era a mesa mais animada. O gringo realmente agregava, ele era atraente e super animado. Ele adorava caipirinha, e preferia aquela feita com vodka. Eu amava ouvi-lo dizer absolut, olhava discretamente para seus lábios, como se moviam ao pronunciar absolut. A animação corria noite adentro, e já era bem tarde quando o cansaço chegou e o grupo começou a se dispersar, sobramos nós dois, sorrindo ele me convidou para o último drink, eu aceitei na expectativa de um “algo” mais, estava preparada. Eu o observei a noite toda e nem de longe ele se pareceu com aquela pessoa com quem eu havia trocado mensagens algumas semanas atrás! Ele não demonstrou nenhuma intimidade, nenhum gesto dúbio. Pensei que o motivo era por outras pessoas estarem por perto, só podia ser isso. Então meu coração disparou quando veio o convite para ficar mais um pouco, pensei: “Vai rolar…”. Conversamos sobre amenidades, falamos um pouco daquela turma que se encontrava sempre, de nossas rotinas na empresa e o tempo foi passando, o bar começou a se preparar para fechar. Decidimos sair, na rua ele passou o braço em torno de minha cintura, senti seu calor e fiquei arrepiada. Minha cabeça girava… ia rolar…
Caminhamos até um ponto de taxi, ele se despediu ali mesmo, me beijou na testa. Eu frustrada entrei no carro, dei meu endereço, ele entregou uma nota de cem reais ao taxista e ordenou: “Por favor, cuidado com ela”.  Acenou-me um adeus e se dirigiu ao outro táxi. E eu frustrada… então terminaria assim? E as conversas picantes pelo whatsApp? E as horas gastas no salão, e o incômodo da depilação? Tudo isso para nada?... Desculpe Bessie, mas você não vem!

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