domingo, 18 de setembro de 2016

UM AMOR DE APLICATIVO

A tecnológica, a internet assim como todos os avanços dessa semântica têm proporcionado profundas mudanças na vida da gente, isso é fato! Mas, é preciso cuidado, há perigos neste universo na mesma proporção em que detectamos vantagens. Entretanto há lances legais que acontecem ou que são facilitados pela tecnologia, olha esse romance, por exemplo...





UM AMOR DE APLICATIVO

Olhou para o céu e pensou: “vou tomar chuva”. Apertou o passo enquanto desviava das pessoas no calçadão. A rua estava cheia, “será que todo mundo resolveu sair pra caminhar, hoje?”.  Acelerou mais um pouco, talvez fosse a mudança de estação, estava chovendo desde o início da semana, mas hoje o dia amanheceu claro com o céu azul, parecia que o mal tempo tinha dado uma trégua. O cair da tarde ainda manteve um bom aspecto, até que de repente, assim do nada, o tempo fechou. Como se animara a voltar para casa a pé curtindo a brisa do mar tinha que pensar rápido, mas não deu tempo de correr até quiosque do coco verde, o aguaceiro caiu. As pessoas corriam como formigas, tentando encontrar abrigo debaixo das marquises das lojas que adornavam a orla. Resolveu continuar já estava molhada mesmo, afinal correr contra a água era pior, além do impacto da água fustigar o rosto, embaçava as vistas ― ponderou. Mantendo o ritmo dos passos apertou a bolsa contra o peito e seguiu, já enxergava o quiosque logo à frente.
No quiosque, o espaço coberto destinado aos clientes estava lotado, assim que entrou divisou um cantinho perto do balcão e foi se alojar lá. Assim que o dono do quiosque a viu entrar, acompanhou-a para ver pra onde ela iria e disfarçou um sorriso ao vê-la vindo em sua direção. Ele se afastou fingindo organizar alguns copos, depois se aproximou do balcão, teve vontade de puxar papo e pensou em dizer: “Que coragem, hein moça! Enfrentar esse dilúvio!” ―, mas ‘ele’ não teve coragem, achou que era uma fala boba… Ela passava ali todos os dias, mas desde o inicio da semana que não a via, talvez fosse o mal tempo. Sabia que era caminho pra o trabalho dela, um dia a cumprimentou como quem cumprimentava todo mundo, seu coração quase parou porque ela lhe respondeu, assim como quem respondia a todo mundo. Ele não teve coragem de olhar pra ela, e nem viu se ela olhou pra ele também, mas estranhamente estabeleceu-se esse discreto contato entre os dois: cumprimentavam-se todos os dias, mas ela nunca parou pra tomar uma água de coco ou qualquer outra bebida, não trocavam olhares, nem palavras a mais. Até aquele bendito dia chuvoso! Num gesto cavalheiresco, ele lhe ofereceu toalhas de papel, meio sem jeito ela aceitou e aproveitando a deixa pediu um suco de maracujá, precisava de uma desculpa para ficar parada ali, disfarçadamente olhando para o porte atlético e ao mesmo tempo suave daquele que andava tirando seu sono, ela passava ali todos os dias pela manhã e o cumprimentava, ela o olhava com o canto dos olhos e via que assim que passava ele olhava para ela também. Ele lhe trouxe o suco e foi atender outros fregueses, ela bebeu de vagar, demorou o máximo que pode porque a chuva já estava passando e sairia logo, logo. Ela pediu a conta, ele lhe trouxe o valor a pagar e o número de um telefone desenhado no guardanapo, ela foi até ao caixa, pagou e deixou um cartãozinho de visitas. Em casa ela o adicionou ao whatsApp, ele aceitou. Finalmente se apresentaram, ficaram horas e horas de papo, se descobrindo via ‘zap’. No dia seguinte, ele a viu de longe e fingiu que arrumava umas mesas, ela ensaiou um cumprimento mais pessoal, mas desistiu. Cumprimentaram-se sem se olhar, na hora do almoço ele lhe enviou um convite para conversarem mais tarde à noite, via zap. Ela aceitou esfuziante torcendo para o dia passar rápido.




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